Parava de chover. O vento escapava-se por entre as multidões que ensopavam a rua principal com o seu deambular lerdo e duvidoso. Os bares que se acumulavam lateralmente pelas fachadas não deixavam os velhos moradores ter um repouso ameno. Nenhum prédio era excepção: as gargalhadas acumulavam-se e ecoavam desde o chão das suas casas fragilizadas pelo tempo eterno, até ao mais fino pó; ouvia-se o tilintar de copos, o prazer de adolescentes devassas, o soluçar bêbado de toda aquela cidade delinquente e boémia.
Numa dessas casas, escondera-me eu de um ladrão, de um vagabundo que ousara tirar-me a roupa que me cobria há já uns dias. Deus é só para alguns, repetia para mim centenas e centenas de vezes, quantas fossem preciso para me manterem acordada, a fim de procurar algum sítio onde debruçar a minha alma. Mas à medida que subia a escadas, deparava-me com o quão desigual era o ar que recheava os interstícios do edifício. A música aqui ressoava diferente: não eram os gemidos mundanos; era um instrumento – um piano, mas não um piano vicioso de bar.
No delirar daquele refúgio ofuscante, cada simples nota fazia-me subir mais um degrau, como se a própria melodia fosse um perfume magnético, o qual abraçava num gesto maquinal e, de certa forma, devoto. As paredes calejadas seguravam o apoio do meu braço, que me ia mantendo firme e apta para aquela escalada invernosa.
Chegava por fim. Era o número 7, uma porta enegrecida pelas humidades soltas pelo bafo da cidade. O som pulsava fortemente, era ali. Ajoelhei-me, nivelei os meus olhos à fenda da fechadura da porta quase fechada. Vi sapatos negros de homem, algo normais, mas compassados e enamorados pelos os pedais do piano. Tiravam o fôlego do instrumento que se sustinha pausadamente, retinindo adjacentes os sons, rítmica e melodicamente.
Rodei de encontro ao abraço da parede e fechei os olhos. Era Deus, ou um arcanjo, ou o messias. Não sabia, mas saboreava.
Ouviu-se o ranger da porta, produzido por uma corrente de ar qualquer. Para meu deleite, a porta estava agora entreaberta. Podia ver-se a aura imaculada que da porta saía.

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