segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

De corpo e alma

De corpo e alma, dirias tu. Não há motivos para pudor, para incredulidade… Não existem especialmente fundamentos para a intranquilidade. Num dia de Outono, por entre as raízes descabidas, desfiguradas, salientes das árvores que povoam o nosso jardim edénico, a nossa floresta ideal, dizes tu palavras soltas e lunáticas, que prefiro beber numa mudez agradada. Esse verdume que adivinha quando afagado pela vanidade do vento, que sibila religiosamente às mais ténues folhas o seu anseio de ser sentido, amado pela natureza envolvente.
Que vês tu desta varanda? Que vês tu para além daquilo que horizonte delimita, que os olhos te provam, que cheiras ou saboreias na brisa?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Pianíssimo

Parava de chover. O vento escapava-se por entre as multidões que ensopavam a rua principal com o seu deambular lerdo e duvidoso. Os bares que se acumulavam lateralmente pelas fachadas não deixavam os velhos moradores ter um repouso ameno. Nenhum prédio era excepção: as gargalhadas acumulavam-se e ecoavam desde o chão das suas casas fragilizadas pelo tempo eterno, até ao mais fino pó; ouvia-se o tilintar de copos, o prazer de adolescentes devassas, o soluçar bêbado de toda aquela cidade delinquente e boémia.

Numa dessas casas, escondera-me eu de um ladrão, de um vagabundo que ousara tirar-me a roupa que me cobria há já uns dias. Deus é só para alguns, repetia para mim centenas e centenas de vezes, quantas fossem preciso para me manterem acordada, a fim de procurar algum sítio onde debruçar a minha alma. Mas à medida que subia a escadas, deparava-me com o quão desigual era o ar que recheava os interstícios do edifício. A música aqui ressoava diferente: não eram os gemidos mundanos; era um instrumento – um piano, mas não um piano vicioso de bar.

No delirar daquele refúgio ofuscante, cada simples nota fazia-me subir mais um degrau, como se a própria melodia fosse um perfume magnético, o qual abraçava num gesto maquinal e, de certa forma, devoto. As paredes calejadas seguravam o apoio do meu braço, que me ia mantendo firme e apta para aquela escalada invernosa.

Chegava por fim. Era o número 7, uma porta enegrecida pelas humidades soltas pelo bafo da cidade. O som pulsava fortemente, era ali. Ajoelhei-me, nivelei os meus olhos à fenda da fechadura da porta quase fechada. Vi sapatos negros de homem, algo normais, mas compassados e enamorados pelos os pedais do piano. Tiravam o fôlego do instrumento que se sustinha pausadamente, retinindo adjacentes os sons, rítmica e melodicamente.

Rodei de encontro ao abraço da parede e fechei os olhos. Era Deus, ou um arcanjo, ou o messias. Não sabia, mas saboreava.

Ouviu-se o ranger da porta, produzido por uma corrente de ar qualquer. Para meu deleite, a porta estava agora entreaberta. Podia ver-se a aura imaculada que da porta saía.